Crônicas da Paulicéia Revisitada
São Paulo vista da França



Antigomobilista?

Soube que no último fim de semana houve um desfile de carros antigos na Av. Paulista. Então me deu vontade de contar a visita que fizemos ao Muséu do Automóvel em Ubatuba, durante o fim de semana chuvoso que passamos lá.

Ele é pequeno, acredito que haja no máximo uns 30 carros expostos. Mas o que falta em tamanho sobra em charme...aqueles carros parecem que saem diretamente de um filme do cinema mudo ou dos gangsters da Chicago da lei seca. Sem falar dos mais recentes, que nos transportam aos usados na nossa infância.

Os veículos expostos (Fordinhos, Mustangs, Cadillacs, etc.), fabricados entre 1920 e 1972, são renovados periodicamente, o acervo do museu não é permanente. Nas paredes, para cada carro exposto, há fotos de acontecimentos nos quais eles foram usados na época ou recentemente, como a jardineira que transportou o então governador Alkmin, ou aqueles que foram utilizados nas gravações de novelas ou mini-séries da Globo, como JK ou “Um Só Coração”.

Além dos automóveis estão também expostos bicicletas com aro de madeira, lambretas, objetos e equipamentos como macacos, calibrador de pneus e uma bomba de gasolina antiga que é uma gracinha. E para os saudosos das pistas de autorama, existe uma disponível neste museu onde se pode “brincar” à vontade.

Saindo do museu fomos diretamente a uma lanchonete para comer coxinhas, empadinhas e outras guloseimas que só se encontram aí no Brasil. Hum, que delícia, afinal ninguém é de ferro e não se vive só de cultura, não é mesmo?...

Você sabia?

Os apaixonados e colecionadores de carros antigos se chamam antigomobilistas.

Para saber mais :

Museu do Automóvel de Ubatuba

Ubatuba



Escrito por Maria Augusta às 05h42
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Projeto Tamar

Hoje aqui na França é um dia de mobilização contra o aquecimento da Terra...aproveito a ocasião para falar de um projeto que conheci na minha mais recente visita ao Brasil, e que nos permite de vislumbrar um lampejo de esperança.

 Fim de semana em Ubatuba…O dono da pousada onde estávamos nos "prometeu" sol... Mas que nada, tivemos chuva e frio. O que fazer?

Resolvemos então visitar as atrações culturais e ecológicas da cidade. Não ficamos decepcionados, diante do que vimos no final do dia até pensei : "Ainda bem que choveu!"

Para começar, visitamos o aquário da cidade, aliás muito interessante, ele tem 12 tanques de água salgada, dos quais um é um tanque de contacto, onde os visitantes podem tocar os animais sob a supervisão de um monitor. Tem também 11 tanques de água doce onde se encontram piranhas e outros peixes da Amazônia e do Pantanal, além de uma área climatizada para os pingüins. A visita valeu a pena, meu marido e minha sogra, que são franceses, nunca tinham visto uma piranha, e eu, nunca tinha visto um pingüim...

Depois, ali do lado da entrada do aquário, entramos na lojinha do Projeto Tamar. Minha irmã, grande viajante do litoral brasileiro, já conhecia este projeto, mas para nós era novidade. A recepcionista da loja, bastante atenciosa, não se limitava a vender os produtos, ela nos explicava de onde eles provinham e as comunidades que haviam trabalhado para confectioná-los. E nos explicou então o que era o Projeto Tamar...

Este projeto, que possui 21 bases na costa brasileira e no qual trabalham 1200 pessoas, tem como missão de salvar as tartarugas marinhas da extinção. Sua ação consiste na identificação das ameaças para a espécie, não só as naturais, como as doenças e a predação por outros animais, como àquelas associadas à presença humana, como a poluição, a caça e a coleta de ovos e as redes de pesca. No entanto, eles logo perceberam que para que a ação tivesse sucesso, não poderia se limitar às tartarugas. Era necessário também motivar as populações costeiras, oferecendo alternativas econômicas para amenizar a questão social, reduzindo assim a pressão sobre as tartarugas marinhas.

Estas alternativas passam pela valorização artística e resgate cultural da região, pela educação com a criação de escolas, pela criação de creches e hortas comunitárias, desenvolvimento do ecoturismo, etc. Desta forma, em cada sede do projeto, a ação dos pesquisadores é associada à dos moradores locais, como os pescadores, por exemplo. Estes são instruídos no sentido de como agir se uma tartaruga é capturada nas redes de pesca.

Mais tarde, visitamos a sede do projeto em Ubatuba. Ele fica no bairro de Itaguá em uma área de 3600 m2 e apresenta aquário, tanques de exposição, terrário para as tartarugas terrestres. Acompanhados por uma estagiária de biologia marinha que trabalhava para o projeto, que ia nos explicando tudo sobre estes animais, vimos tartarugas terrestres, aquáticas de água doce, aquáticas de agua salgada...soubemos que no litoral brasileiro existem as verdes, as de pente, as oliva, cabeçuda, de couro, e quais são as diferenças entre elas...o que elas comem, quanto tempo elas vivem, as migrações...que as tartarugas podem medir mais 2 m, pesar até 150 kg.

O que muito me impressionou neste projeto foi a maneira "global" de tratar o problema ambiental : valorizar o homem e ensiná-lo a valorizar a natureza, acho que é este o caminho. Saímos de la fascinados e esperançosos, pensando que se outros projetos como este se disseminam, talvez nosso planeta tenha uma chance de ser salvo...

Para saber mais sobre este projeto :

Projeto Tamar



Escrito por Maria Augusta às 08h44
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Aniversariando com Sampa

Pois é, faço aniversário junto com a minha querida cidade de São Paulo, sempre disse orgulhosamente que sou uma tripla paulistana : nascida na cidade de São Paulo, no Hospital São Paulo e no dia do aniversário de Sampa!

 

O fato de fazer aniversário junto com a cidade tem as suas vantagens. A primeira é que é feriado municipal, logo a comemoração pode ser feita no dia mesmo. Na minha família, dos cinco irmão e irmãs, quatro são do mês de janeiro, mas só era feriado no meu... Logo, quando éramos crianças minha mãe juntava os quatro aniversários de janeiro e os comemorava todos ao mesmo tempo no dia 25, em uma grande festa. Na família o 25 de janeiro era uma data tão tradicional quanto o Natal ou o Ano Novo!

 

Ai, os quitutes que minha mãe preparava para a ocasião...Lembro-me que íamos nos deitar e ela ficava na cozinha preparando as guloseimas...No dia seguinte, quando acordávamos a mesa da sala estava cheia de coisas deliciosas cuidadosamente cobertas para proteger da poeira e das mãozinhas impacientes da turminha, que rodava em torno da mesa. Lembro-me que o bolo era enorme (também para quatro), em geral o recheio era de coco com ameixas, a cobertura de coco, todo decorado. Um outro prato que ela fazia como ninguém era as balas de coco...hum, branquinhas, macias, derretiam na boca. E a apresentação então...um prato alto, de onde desciam em cascata os fios do papel de bala rosa e azuis, pois éramos três meninas e em menino os aniversariantes de janeiro. Naquela mesa maravilhosa, havia ainda o manjar branco, os tradicionais brigadeiros, os beijinhos, sem falar dos salgadinhos...Ai, como o dia era longo, como demorava chegar a hora de experimentar!

 

Depois, nos nossos vestidos novos feitos especialmente para a ocasião, recebíamos a família e os amigos que chegavam carregados de presentes...lembro que cada um dos aniversariantes tinha a sua pilha de presentes. Na época, era muito comum dar "cortes" de tecido para as meninas, e como eu e minha irmã tínhamos mais ou menos o mesmo tamanho (ela é um ano mais nova, mas sempre foi mais “crescida” ), sempre ganhávamos cortes parecidos, com os mesmos motivos, mas em cores diferentes.  Quando fiz onze anos, ganhei de minha tia um estojo de pó compacto, com espelhinho e tudo. Fiquei maravilhada, isto queria dizer que já era considerada uma mocinha (mas passar batom, ainda não, só no Carnaval!).

 

Atualmente estou morando longe de São Paulo, do outro lado do oceano e do equador, mas todo mundo me telefona do Brasil 25 de janeiro...na memória coletiva da família e dos amigos o aniversário de São Paulo ficou ligado ao meu! Por aqui a comemoração é bem mais comedida, pois para começar é em pleno inverno, conheço menos pessoas e sacrilégio maior, nem é feriado! Pode uma coisa dessas?!



Escrito por Maria Augusta às 06h55
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453 anos

Esta flor simboliza a força e o dinamismo do paulistano que depois de cada percalço, levanta e segue em frente com a cabeça erguida e um sorriso nos lábios.

Feliz Aniversário, São Paulo!



Escrito por Maria Augusta às 10h51
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E São Paulo parou...

Sempre ouvi dizer « São Paulo não pode parar ». E no entanto neste final de semana ela parou...Parou por quê ???!!!

 

Estava tranquilamente sentada diante da televisão assistindo ao jornal aqui na França, quando entre o resultado do GP da Espanha, a escalação da seleção francesa para o Mundial e os problemas políticos franceses (uma história de espionagem e corrupção envolvendo o presidente e o primeiro ministro está sacudindo o governo ) a apresentadora soltou a bomba : “A cidade de São Paulo no Brasil esta em pé de guerra, já houve mais de 50 mortos devido a motins nos presídios comandados pela Mafia”. Caí das nuvens...Estou aqui há 8 anos, e na época que morava aí não se ouvia falar de crime organizado em São Paulo.

 

Fiquei pensando o que poderia ter causado este crescimento do crime nestes últimos anos. O cidadão paulista possui uma índole honesta e trabalhadora, porque o número de malfeitores cresceu tanto? Também acredito que tudo isto esta ligado a problemas sociais, no fato que as camadas mais pobres da população não conseguem ter acesso às estruturas de base, como serviços de saúde e educação e mesmo à uma alimentação correta. Então os que possuem um caráter mais fraco sucumbem ao apelo do banditismo. Certamente isto não justifica o crime, mas pelo menos fornece uma pista de como combater suas origens.

 

De quem é a culpa? De todos nós, acredito. Dos governantes, que não utilizam o dinheiro publico para resolver os problemas do povo, sem falar da corrupção. Das empresas, que poderiam diminuir um pouquinho suas margens de lucro e pagar salários melhores a seus empregados. E a cada um de nós...porque este mês não deixaria de comprar aquele lindo e caríssimo par de sapatos para comprar material escolar para o filho da faxineira? Se ele for à escola, ele terá menos tempo para ficar na rua frequentando más companhias e terá mais chances no futuro.

 

Viver em sociedade é isto, ou vamos todos juntos ou a máquina emperra e explode...e seremos eternamente condenados a viver em guetos de luxo guardados por seguranças e cercados de miséria por todos os lados. Não é isto que queremos para a nossa querida São Paulo...



Escrito por Maria Augusta às 07h34
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Bairrismo ou Racismo?

Volto a blogar depois de varias semanas afastada da Internet, devido a problemas com o meu provedor. Neste post, vou sair um pouco do tema deste blog que descreve meus passeios na São Paulo real, para falar de coisas que constatei durante os passeios "virtuais" que fiz recentemente pelos blogs amigos da cidade, e que muito me entristeceram.

Uma vez mostrei a amigos aqui em Nancy a foto da equipe onde eu trabalhava em um instituto de pesquisa na Cidade Universitária. Eles olharam o grupo, todo sorridente posando diante da arvore de Natal e me disseram : "Mas vocês também tem muitos estrangeiros no Brasil!" Espantada com esta pergunta, espontaneamente, respondi o óbvio ululante: "Não, todos que estão na foto são brasileiros"..

Depois de algum tempo morando aqui, entendi a razão desta pergunta. Sobre o a foto havia loiros, morenos, negros, "japoneses", "chineses"…para nós no Brasil isto é uma coisa muito normal, a nacionalidade não é ligada à "raça biológica". Qualquer pessoa que desejar pode resolver "Quero ser brasileiro", se naturaliza, e será aceita pelos outros brasileiros como parte do nosso povo. Acho mesmo que ser brasileiro é independente de raça ou religião, é um estado de espírito. Todos que estão em fase, com o coração em diapasão com a nossa cultura mestiça, mesclada de música, futebol, otimismo e alegria de viver pode ser brasileiro. Isto não acontece aqui na Europa onde a origem das pessoas é importante, o que causa uma certa tensão social em relação a alguns imigrantes que não conseguem se integrar. Alguns dizem mesmo que todos os males e problemas do país são uma consequência da imigração…

Pois é, qual não foi minha surpresa e meu desapontamento quando soube que em São Paulo existem pessoas que seguem esta mesma linha de pensamento não em relação aos imigrantes …mas aos migrantes. Elas acham que toda a falta de segurança e os problemas sociais da cidade são devidos à presença dos nordestinos. Que absurdo! Quem não tem na sua família um parente vindo do Nordeste ou de um outro estado? Como podemos esquecer toda a riqueza cultural que nos trouxeram pessoas como Caetano, Gil, Gal Costa, Maria Bethânia? Quem não tem orgulho de fazer parte do mesmo país que Jorge Amado e Dorival Caimmi? Graças a eles não somos apenas "europeus desencantados", somos um povo com uma personalidade bem definida, com uma alegria de viver que todos nos invejam.

Adoro a cidade de São Paulo pelo que ela é : uma terra que acolhe de braços abertos todos os que desejam viver e trabalhar, apesar de seus problemas. E estes, devem ser resolvidos por todos e para todos os brasileiros que aí vivem, não importa de que canto do mundo eles tenham vindo.



Escrito por Maria Augusta às 03h56
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Vitrinas das ruas de Sampa

 Dedico esta crônica ao meu sobrinho, que passou no vestibular e está entrando na USP. PARABENS!!!

Dizem que os paulistas são fanáticos do consumo…Mas fala a verdade, não é uma delícia andar sem rumo olhando vitrinas, ver coisas bonitas, entrar e comprar.? Hum, talvez não seja assim tão simples, né?

Entre o momento que você vê a maravilha na vitrine e o momento que você sai da loja com o cobiçado objeto do desejo na mão, há um formalidade meio chata mas inevitável: o pagamento. Mas deixemos de lado este "pequeno detalhe" e falemos de coisas agradáveis…

Comprar onde? Certamente, com o passar do tempo, nossos locais de consumo vão se modificando, certamente em função da proximidade de nossa casa ou de nosso local de trabalho e também evolução do nosso poder aquisitivo. No meu caso, primeiro foi a Ladeira Porto Geral, depois com o meu primeiro emprego comecei a comprar na rua Direita.

Logo depois da minha formatura da faculdade atravessei o viaduto do Chá e passei a comprar na Barão de Itapetininga, 24 de Maio e arredores…fiz muitas compras na Mesbla, e também em uma livraria na 24 de Maio que vendia livros científicos russos traduzidos em francês a preço de banana. Uma vez, passando na D. José Gaspar ouvi uma música, tocada no piano, doce, suave, cativante... fui seguindo a música até entrar na loja de discos, perguntar o que estava tocando, e comprar o disco no ato (era o pianista Richard Clayderman, não entendo porque os franceses não gostam dele, eu adoro). Desde esse dia, fiquei freguesa da lojinha. No Mappin comprei a primeira calculadora científica que possuí …a crédito, uma calculadora científica custava na época tanto quanto um computador hoje. Você sabia que o Mappin foi a primeira loja de São Paulo a vender a crédito e a utilizar vitrinas de vidro para expor suas mercadorias? E que ele já foi na rua Direita? Pois ele esteve nela até 1939, achei um texto delicioso que descreve esta época da mudança :

O CHA DEPOIS DAS COMPRAS

 

Mappin foi para a Praça Ramos de Azevedo em 1939

As mesas eram disputadas e ocupadas por senhoras que voltavam das compras nas casas de moda da Barão de Itapetininga, Marconi e Arouche, devidamente enchapeladas, coloridas pelas saias verdes das estudantes da Álvares Penteado, animadas pelas normalistas da República,adornadas pelas alunas da Escola de baile da Prefeitura , respeitabilizadas por distintas professoras comemorando aniversários de formatura, agitadas por crianças.O chá completo não enchia apenas os olhos, pois era servido com infindável acompanhamento de torradas, pãezinhos, bolos, geléias, doces, salgadinhos e sorvetes.O mesmo trio - piano, violoncelo e violino - que durante a hora do almoço se limitara a produzir suave música de fundo, tocava mais alto para fazer-se ouvir, atendendo aos pedidos que choviam - valsas, marchinhas , temas dos filmes em exibição na cidade, intercalados com solicitados e insistentes parabéns a você. As crianças ganhavam balões coloridos, ninguém tinha pressa alguma e o vozerio era o de um aviário em ebulição, tantas eram as que falavam e tão poucas as que ouviam." (Frederico Braço, Postais Paulistas. São Paulo, Maltese, 1993).  

Quando mudamos para Pinheiros comecei a fazer compras na Teodoro Sampaio. Também sempre gostei muito de fuçar naquelas galerias da rua Augusta, naquelas boutiques em um cantinho bem escondidinho sempre se acha coisas diferentes e originais. Uma vez vi um bottier ali na rua Augusta. Você sabe o que é um bottier? Nem eu, mas suponho que seja uma loja especializada em fazer sapatos sob medida.

Depois não sei se por frescura ou por comodidade eu não queria mais fazer compras a pé! Logo quem diz carro, diz problema de estacionamento, e aí virei uma "habituée" dos shoppings centers. Mas destes falarei depois…

Agora que moro no Exterior, quando vou a São Paulo e percorro as ruas olhando as vitrinas, sempre começo pelo bairro onde em geral fico hospedada, o Alto da Lapa no limite com o Alto de Pinheiros. Naquele triângulo formado pela Diógenes Ribeiro de Lima, a Cerro Corá e a Pio XI tem um comércio interessante, umas lojinhas instaladas no andar térreo de sobrados, que para entrar precisa-se tocar a campainha. Cada vez que vou, umas apareceram, outras desapareceram, e sempre chego em casa com coisas surpreendentes nas mãos…uma vez saí para procurar uma camiseta e acabei voltando com uns doces caseiros deliciosos. Tem também um bazar, este bastante antigo, que parece uma caverna de Ali Babá, tem de tudo : ali já comprei calculadora, tênis, agasalho de ginástica, enfeites de natal, presentes de última hora…tudo baratinho, baratinho, freguesa!

Mas é uma pena que o comércio dos bairros tende a desaparecer diante da potência das grandes lojas de departamentos e dos shoppings centers. Nas pequenas lojas o tratamento é bem mais convivial, menos "automatizado" que nos gigantes do consumo. Mas isto é um fenômeno mundial, não podemos fazer nada…



Escrito por Maria Augusta às 09h20
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Poetas do Asfalto

Aqui em Nancy a cidade está toda branquinha, coberta de neve, parece um bolo de noiva coberto com glacê e polvilhado com coco. Está um frio daqueles, há dias não temos temperaturas positivas. Dia 25 de janeiro, como era meu aniversário também, me ofereci um dia de folga (imaginem, aqui nem é feriado!!!) e fiquei aqui no meu apartamento bem quentinho...passeando pelos meus sites e blogs favoritos, descobri alguns textos magníficos em homenagem ao aniversário da cidade de São Paulo. Vejam só :

São Paulo é uma referência no mundo. É crescimento desvairado. É solidariedade. É humanidade... Nasceu com o símbolo da educação... Hoje, educa... fortalece... desenvolve em seu mais profundo espírito... É metrópole desde o seu ponto zero até a tangência de seu quadrante.... São Paulo tem tudo a ver... Veja a cidade do alto... é sincronia de energias... abundância... amor... É São Paulo. Parabéns a essa cidade... hospitaleira em todos os sentidos!

Acacio Nascimento - comentário neste blog


Querida São Paulo, Desde que te vi através de uma embaçada janela do velho Electra, meu coração, que batia Caimmy, começou a batucar Adoniran.Meus olhos, até então acostumados com a crueza do céu do meu sertão, orvalharam quando olharam para o seu. Emoção ou Cubatão, não importa. O importante é que até hoje eles vibram quando estou chegando aí e o tempo, de bom humor, abre frestas só pra você brilhar pra mim. Em você a indiferença jaz. Ou abre-se a boca de espanto, ou fecha-se os olhos de vergonha. Te adoro, minha velha. Adoro o seu cheiro de nada misturado com tudo. Seus Tons e Zés; seus Arnaldos e Antunes; seus Jucas e Fagundes. Poder ser Antonio ou Ermirio; Daslu ou Paulino; tomar caldo de cana e arrotar absinto.Onde no mesmo lugar Fasano e esfiha? Rita Lee e Turquia? Japão e Bahia? Te cuida, minha velha. Por muitos anos ainda quero te andar.

Janio Soares - Ronda Paulistana



Escrito por Maria Augusta às 16h12
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Feliz Aniversário São Paulo!

Parabéns à esta magnífica cidade de São Paulo, que há 452 anos acolhe de braços abertos pessoas vindas de todos os cantos do mundo...e à brava gente paulistana que sabe que mesmo parecendo uma selva de pedra, neste asfalto "plantando, tudo dá"!



Escrito por Maria Augusta às 08h30
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Natal 1 : As Águas Dançantes

Dedico esta crônica à minha irmã caçula pois hoje é seu aniversário. Um beijo bem grande para você, tá?

Sempre adorei a época de Natal. Entre as lembranças mais remotas na minha memória estão os passeios que fazia com meu pai à noite pelo bairro da Vila Mariana, para ver as árvores iluminadas com todas aquelas pequenas lâmpadas coloridas na época de Natal. E é verdade que quando somos crianças, o Natal demora uma eternidade para chegar, à medida que crescemos ele chega cada vez mais depressa…

O Natal aqui na Europa também tem seu charme. O frio, a neve, os "marchés de Nöel" (feiras com barraquinhas de madeira imitando pequenos chalés) com suas velas, ornamentos natalinos, doces típicos, vinho quente…Este ano, quando caíu a primeira neve no começo de dezembro, deixei o carro na garagem (apesar de estar aqui ha muitos anos, não me aventuro a dirigir quando neva) e peguei o bonde para ir ao meu curso de desenho no centro da cidade. Chegando lá, surpresa : a decoração de Natal tinha sido inaugurada! Cortinas de luzes desciam no meio da avenida sobre a rua toda branquinha de neve, fazendo brilhar os flocos que caíam. O "marché de Nöel", que também acabava de ser aberto, com suas cabaninhas de madeira iluminadas com guirlandas brilhantes, lançava no ar o perfume das especiarias que eles colocam no vinho quente…Um alto-falante entoava canções natalinas. As pessoas pareciam apressadas, mas serenas. As luzes, a paisagem, os perfumes davam uma impressão de que estávamos suspensos no ar, num outro mundo, todo branco de tanta paz. Naquele momento esqueci o frio, o chão escorregadio, e fiquei contente de ter sido obrigada de pegar o bonde, senão não teria passado ali e vivido este momento.

Mas Natal é sobretudo uma festa de família, e a família do meu lado está em São Paulo, aqui na França somos somente eu, meu marido e minha sogra. Geralmente, comemoramos com amigos : uma vez tivemos um Natal ecumênico, em torno da mesa havia cristãos, muçulmanos, judeus e ateus! Então, este ano embarcamos para o Brasil para que eles pudessem conhecer um Natal tropical em família, com muito calor (sobretudo humano), muita festa, muita alegria, muitos presentes e … o amigo secreto, é claro!

Em São Paulo, ficamos hospedados na casa de minha irmã caçula, que juntamente com o marido fizeram questão de nos oferecer o melhor da hospitalidade brasileira : todo conforto (mesmo que fosse em detrimento do deles), comidinhas gostosas, nos acompanharam às compras e também aos passeios, uma verdadeira maratona para eles. E também nos levaram para ver a árvore de Natal e as águas dançantes do Parque Ibirapuera.

Pegamos bastante trânsito para chegar lá, mas valeu a pena. No caminho, já pudemos ver as árvores cheias de luzes e cruzamos um "carro alegórico" todo enfeitado, com o Papai Noel, que tocava músicas natalinas. A árvore de Natal do Ibirapuera, que pode ser vista de longe, é realmente muito bonita e impressionante.

Soube a fonte multimídia do Ibirapuera foi oferecida à cidade para o seu 450° aniversario por uma rede de supermercados. Ela está instalada no maior lago do Ibirapuera e com 110 m de comprimento por 2 m de largura, movimenta até 60000 litros por minuto, sendo que cada torre de agua pode movimentar 24 jatos, permitindo a formação de uma cortina para a projeção de imagens. Além da possibilidade de realizar até 15 coreografias especiais, a fonte tem capacidade de projetar um gêiser de 60 metros de altura, o equivalente a um prédio de 20 andares. Oito setores de iluminação possibilitam a geração de 60 tonalidades diferentes de cores.

Chegamos bem a tempo, a primeira sessão estava começando…os jatos de água coloridos subiam e se moviam no ar ao ritmo da música : Jingle Bells, Aleluia, o Guarany, Happy Christmas…em torno do lago, as crianças correndo pelo gramado, no meio do bosque de luzes (1 milhão de lâmpadas foram distribuídas em 200 árvores em torno do lago) pareciam elfos e duendes. Magia pura!

Depois de meia hora de espetáculo, saímos de lá contentes, apesar de que estava fazendo meio frio, e fomos jantar em uma churrascaria da Avenida Wahington Luiz. Ambiente natalino garantido : grupos de funcionários de empresas reunidos para a famosa festa de fim do ano. A comida era muito boa, os únicos inconvenientes eram o serviço muito corrido pois o restaurante estava cheio, e o barulho, pois a alegria e a cerveja corriam soltas…mas não é isto um verdadeiro ambiente de Natal brasileiro?



Escrito por Maria Augusta às 07h53
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No Centro 3 : Centro Cultural BB

Chegamos então ao Centro Cultural do Banco do Brasil, que fica na esquina da Rua da Quitanda com a Alvares Penteado. Este edifício, foi construído em 1901 e se tornou a primeira agência do Banco do Brasil em São Paulo em 1927.

Foi reformado recentemente para se transformar em centro cultural. Ele é composto de 5 andares, sendo que os andares superiores se distribuem em torno de um vão central, deixando ver desde o térreo a magnífica clarabóia com vitrais. Os estilos deste imóvel são o neoclássico e o art-nouveau.

Em relação ao estilo art-nouveau, caracterizado pelas formas fluidas e sinuosas, tendo como temas a mulher, a flor, a natureza em geral, ele começou pelas artes decorativas (móveis, vasos, jóias, tecidos, afiches, objetos de ferro fundido) e passou em seguida à arquitetura, utilizando os novos materiais surgidos com a revolução industrial. Este movimento, cuja idéia era de levar a arte a todos os objetos da vida cotidiana, começou por volta de 1890 e durou até a Primeira Guerra Mundial, o período chamado de "Belle Epoque". Os núcleos mais importantes da "art nouveau" na Europa foram a Bélgica, a Escócia, a Áustria, a Espanha e a França, esta última com a "Ecole de Nancy"…Pois é, Nancy, a cidade de grandes nomes deste movimento como Gallé (vasos, móveis), Majorelle (móveis, luminárias), Daum (cristais), Grüber (vitrais)…e também a cidade onde moro atualmente. Em 1999, foi comemorado aqui o centenário da "Ecole de Nancy", com mil conferências, visitas e debates sobre o tema. Como sou grande fã deste estilo, assisti a tudo que tive direito! E em São Paulo fiquei agradavelmente surpresa ao saber que houve várias manifestações "art nouveau" : a Vila Penteado (atual sede da pós-graduação da FAU), o Teatro São Pedro, a Maternidade São Paulo, os gradis do Viaduto Santa Ifigênia…e este prédio do CCBB, onde o tema natureza da "art-nouveau" é representado por ramos de café, abacaxis e folhas de fumo, marcas da aristocracia pré-industrial no Brasil.

A exposição que visitamos neste magnífico prédio se chamava "Arte Brasileira na Coleção Fadel – da inquietação do moderno à autonomia da linguagem", que ocupava os cinco andares, com obras que iam do período colonial ao contemporâneo. Havia obras dos artistas Tarsila do Amaral, Hélio Oiticica, Volpi, Guignard, Portinari, Anita Malfatti, Ismael Nery, entre outros. Foi um passeio muito agradável, tanto pela exposição quanto pelo próprio edifício.

Na saída, a chuva nos alcançou, tão forte que o guarda-chuva não servia para nada. Entramos em uma loja de sapatos para fugir dela, aproveitei para comprar um par de sapatos para levar de presente para minha sogra (que aliás ela nunca usou…).

Finalmente pudemos sair da loja e procurar condução para voltar para casa. Passei pela Praça Patriarca, atravessei o Viaduto do Chá e fui pegar um ônibus na Praça Ramos de Azevedo. Parei por alguns instantes diante do Teatro Municipal, me lembrando dos seus concertos das manhãs de domingo que eu não perdia um quando morava na Consolação…com direito ao delicioso chocolate quente da Leiteria Americana, ali na Xavier de Toledo, nos dias de inverno!



Escrito por Maria Augusta às 13h01
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No Centro 2 : A Torre do Banespa


Após deixar o Pátio do Colégio com um tempo ameaçador, nos dirigimos ao Banespa para visitar a torre. Ele é situado na rua João Brícola, que com a ruas Quinze de Novembro, São Bento e adjacências constituem o centro bancário de São Paulo.

E por falar nisso, faço aqui um parêntese para falar de um incidente que me aconteceu e que na minha memória ficou ligado ao centro bancário da cidade. Quando procurava meu primeiro emprego nos anos 70, eu ia de banco em banco ali naquelas ruas, perguntava na recepção onde era o Departamento de Pessoal, ia até lá, preenchia uma ficha e aguardava chamada para fazer os testes (naquela época era assim que se procurava emprego). Pois bem, um belo dia, com meu vestido novo comprado especialmente para me apresentar bem nas entrevistas (a saia era bem curta, como era a moda), entrei em um daqueles imponentes edifícios da rua XV de Novembro. Era um dos mais belos prédios da rua, tinha pelo menos três recepcionistas em suntuosos uniformes no balcão de informações, tudo cintilando, o piso bem enceradinho...tão enceradinho que escorreguei na escada ali bem na frente dos recepcionistas, dei uma bela reviravolta sobre mim mesma, e poof, caí sentada no degrau como uma jaca madura. Foi um daqueles tombos lindos, memoráveis!!! Levantei rápido, puxando a saia curta, mas a cara ficou no chão...imaginem, só tinha vontade de me evaporar, de tanta vergonha. Mas corajosamente, com um sorriso amarelo nos lábios, me dirigi aos recepcionistas para perguntar onde era o departamento de pessoal. Eles não conseguiam responder de tanto que riam, apesar do esforço para se conter. Nem precisa dizer que não me lembro da resposta deles, que saí dali rapidinho e que não voltei nunca mais. Este incidente não me impediu de encontrar um emprego na sede de um outro banco que fica ali perto, na Praça Patriarca, bem em frente ao Viaduto do Chá, onde trabalhei durante três anos, até minha entrada na Escola Politécnica. Moral da historia : "quem procura, acha, mesmo escorregando'! Ou a moral da história seria "levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima" ?...

Mas voltando ao presente e ao Banespa, que se chama aliás Edifício Altino Arantes, eu estava curiosa para saber o que podia ser visto do alto deste prédio, tão parecido com o Empire State Building (soube que não é por acaso, o projeto inicial foi mudado para criar esta semelhança), já que ele é visível de tão longe. Esta visibilidade é devida ao fato de que, apesar de não ser o prédio mais alto da cidade, ele está situado no ponto topograficamente mais elevado do centro.

Pegamos o elevador e subimos ao 34° andar, que dá acesso ao topo por uma escada, e paramos para assinar o livro de visitas. Quando coloquei meu endereço de Nancy na França, o recepcionista ficou espantado, não tenho cara de estrangeira...então contei a ele as circunstâncias que fizeram com que uma paulistana venha de outro continente para visitar as atrações da cidade onde nasceu. Neste andar, havia fotos e reportagens antigas contando a história do Banespa.

Pegamos a escadaria que leva à torre e chegamos ao topo para ver dois espetáculos : o primeiro era a visão panorâmica de 360° da cidade, um mundo estranho e surpreendente, a cidade vista la do alto : a Catedral da Sé, o Mercado Municipal, o Viaduto Santa Ifigênia, até a Serra da Cantareira e o Pico do Jaraguá.

O segundo espetáculo era a chegada da tempestade...as nuvens negras carregadas de chuva e de eletricidade avançavam em nossa direção, chegando, chegando, cada vez mais perto. Víamos os raios riscando o céu e daquela altura parecia que estávamos dentro da tempestade. Minha irmã, fotógrafa, estava fascinada com o espetáculo, tirava fotos sem parar. Eu, só tinha vontade de descer, com medo que algum daqueles raios caísse na nossa cabeça, mesmo sabendo que ali devia existir para-raios de todo lado.

Descemos, enfim, antes que a chuva nos alcançasse e fomos visitar o Centro Cultural do Banco do Brasil. Só depois fiquei sabendo que no Edifício Altino Arantes poderíamos ter visitado também o Museu Banespa, com móveis, quadros e fotografias nacionais e internacionais. E que no saguão há um lustre magnífico, de 13m de altura, pesando 1,5 toneladas, desde 1988.



Escrito por Maria Augusta às 15h07
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No Centro 1: O Pátio do Colégio

Estou dentro de um trem que cruza a região da Champagne francesa (sim, senhor, é a região de origem do famoso espumante), indo para Paris onde devo chegar daqui a meia-hora. Choveu e o reflexo dos castelos e das árvores sobre as poças d'agua, assim como as nuvens de pássaros que levantam vôo quando o trem passa oferecem um espetáculo muito bonito. O espetáculo seria realmente feérico se estivesse um dia bonito, pois estamos em dezembro e as árvores mudam de cor antes de perder as folhas e sob a luz do sol, as cores do outono são magníficas. Muito bem, você deve estar se perguntando, mas ela está chegando em Paris e pensando na Paulicéia…será que é porque é uma paulistana da gema nascida dia 25 de janeiro??? Talvez seja por isto, mas é também porque estou indo a Paris para buscar no consulado brasileiro meu passaporte atualizado com o nome de casada, pois devemos embarcar dentro de dois dias, para passar o Natal em São Paulo. Já com a cabeça do outro lado do Atlântico...

 

...lembro-me de um circuito turístico que fiz com a minha irmã no Centro Velho da cidade, em uma das minhas idas a São Paulo. No roteiro, o Pátio do Colégio, o mirante do Banespa e o Centro Cultural do Banco do Brasil.

Imagine, trabalhei durante 3 anos ali no centro da cidade, passei muitas vezes em frente destes lugares, e nunca pensei em entrar para conhecê-los!

Nos encontramos no Largo São Bento e a primeira parada foi "técnica": fomos almoçar em um restaurante, do qual não me lembro o nome, mas que visivelmente era um "point" dos executivos que trabalhavam por ali. Era como um grande "galpão", alto e espaçoso, a comida era boa e o serviço simpático e informal. Tomei guaraná, que é minha bebida oficial quando vou ao Brasil, pois quando volto para cá, passo meses sem poder fazê-lo. O problema deste restaurante é que ele era meio barulhento, havia um eco o tempo todo, não dava para conversar direito.

Saindo do restaurante, sob um sol de rachar, nos dirigimos ao Pátio do Colégio. Compramos entradas para visitar o museu e a capela, e iniciamos a visita. Foi realmente emocionante, deveria ser uma visita obrigatória para todos que amam esta cidade. Imaginar que esta cidade imensa nasceu ali, sob uma cabana de pau-a-pique construída pelo cacique Tibiriçá, naquele planalto banhado pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú, há mais de quatro séculos…em um dia 25 de janeiro!

Prestando atenção na história da fundação de São Paulo , uma revisão de meus conceitos sobre a história do Brasil se operou. Lembro-me que no ginásio nos ensinavam os "pontos" : "Capitanias Hereditárias", "Governadores Gerais", "Entradas e Bandeiras", "Tratado de Tordesilhas"…tudo bem separado, em compartimentos bem distintos. Nesta visita, todos estes "pontos" se fundiram : a missa de 25 de janeiro de 1554, que marcou a fundação de São Paulo de Piratininga foi celebrada na presença dos padres Manoel da Nóbrega (que chegou ao Brasil com o governador geral Tomé de Souza) e José de Anchieta (que chegou com o governador geral Duarte da Costa) e do bandeirante João Ramalho…que partiram da antiga capitania de São Vicente, enviados para ocupar o interior do país…avançando na direção do rio da Prata, para ampliar o domínio português além dos limites do Tratado de Tordesilhas…Assim, na história nada acontece por acaso, nada é independente, tudo se encaixa em um contexto! Claro que na minha idade eu já sabia disto, mas é sempre bom conferir.

As relíquias mais importantes do Pátio do Colégio são sem dúvida a parede de taipa que data da época da construção, e o manto e uma parte do fêmur do Padre Anchieta que se encontram na capela.

Sempre tive reservas em relação à catequese e colonizações, onde uma religião ou uma cultura tentam se impor em relação às outras e muitas vezes destruí-las. Mas tenho uma simpatia no caso de José de Anchieta, creio que houve uma interação mútua, pois ele aprendeu o idioma dos índios e compôs a primeira gramática em língua tupi. Aliás, soube que a língua tupi era a mais falada no Brasil mesmo pelos colonizadores, até o começo do Século XIX, quando a família real portuguesa chegou ao Brasil…e que o Pátio do Colégio é um dos poucos lugares onde se pode aprender esta língua atualmente.

Antes de sair do complexo da Pátio do Colégio demos uma passada pela Praça Ilhas Canárias, onde existe um café que vende entre outras coisas doces típicos e refrescos. Um lugar delicioso, com árvores centenárias, mesinhas de madeira, um verdadeiro oásis no burburinho do centro da cidade. Lembro-me que comi doce de abóbora com sorvete de coco…"un régal", como eles dizem aqui.

Saímos de lá, com um tempo ameaçador e nos dirigimos ao Banespa…mas isto fica para a próxima! 



Escrito por Maria Augusta às 05h55
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A Maleta Laranja

Esta aconteceu durante a volta da viagem do Brasil que fizemos neste mês de dezembro. Desta vez, além de mim e do meu marido, levamos a minha sogra, uma senhora de 84 anos que tem problemas de locomoção.

Bem, na chegada ao aeroporto de Guarulhos para o embarque, tudo bem. Nos dirigimos a um dos balcões de atendimento da companhia aérea e o recepcionista, informado que havia uma pessoa idosa conosco, permitiu que passássemos sem pegar a fila e nos passou em prioridade para viajar em classe executiva, ja que o avião estava em "overbooking". Pedimos também uma cadeira de rodas para a chegada em Paris, pois tínhamos apenas 50 minutos entre a hora teórica da chegada do avião e a partida de nossa conexão para Luxemburgo. Ele anotou tudo no cartão de embarque, enviamos nossas 5 malas, e lá fomos nós. O avião decolou com um atraso de mais ou menos meia hora. Ele poderá recuperá-los durante o vôo, pensei. No avião, classe executiva, champagne, belos talheres mas...o prato servido veio frio e a minha poltrona estava quebrada e não reclinava...estava quase pedindo ao comissario para que ele me encontrasse um lugar mesmo em classe econômica onde eu pudesse me recostar um pouco, quando ele conseguiu inclinar manualmente uma poltrona da primeira fila que também estava quebrada e me propôs de trocar de lugar...aceitei no ato.

No momento da aterrissagem, algumas novidades. A chegada se faria com 20 minutos de atraso e não no terminal que estava previsto inicialmente, o terminal C, mas no terminal A, o que nos deixaria ainda mais longe do terminal D, de onde partiria nosso vôo para Luxemburgo. Como sempre, aquele empurra-empurra para sair do avião e a minha sogra coitada, andando como podia no meio de todo aquele tumulto, pois nem sinal da cadeira de rodas que tínhamos pedido no embarque.

Pegamos a fila da imigração e nem um Cristo para deixá-la passar na frente, olhavam sua dificuldade de locomoção e nem ligavam. Avançamos como podíamos, sempre procurando elevadores onde havia escadas rolantes, pois ela não consegue pegar estas últimas. Seguindo as indicações dos painéis, chegamos enfim ao famoso terminal D. Deixei-os com a minha bagagem de mão em um canto e fui verificar o painel de partida dos vôos. Cadê o nosso??? Nem sinal, já tinha ido embora...Todo aquela correria por nada! E agora, reclamar para quem? Quando compramos a passagem na agência da companhia aérea e mostramos que o tempo entre a chegada em Paris e a partida para Luxemburgo estava apertado, eles disseram que era viável, e subentenderam que o outro vôo esperaria se houvesse um atraso. Chegamos ao terminal dez minutos depois da hora prevista para o vôo e o avião não estava mais lá, logo eles não esperaram nada!! Meu marido estava furioso, soltando fogo pelas narinas...vimos uma porta com o nome da companhia aérea e entramos. Havia uma fila, mas ouvindo as reclamações iradas de meu marido em voz alta, a atendente nos olhou e disse : "O senhor é agente da companhia?". Ele respondeu "Não minha senhora eu sou cliente da companhia que está procurando informações a respeito das conexões e que não encontra em lugar nenhum!". "Então não é aqui, dirija-se ao fim do corredor, vire à esquerda e de novo à esquerda e o senhor chegara ao balcão das conexões". Com minha sogra agarrada ao meu braço de um lado, procurei a minha maleta laranja para seguirmos até o tal balcão. Neste momento, o choque elétrico. CADE A MINHA MALETA LARANJA? Tinha simplesmente sumido da minha mão!!! Roubada, esquecida??? Não importa, o que eu sabia é que minha maleta tinha se evaporado. Daí, toda a tensão acumulada com aquele tumulto e correria explodiu. Comecei a chorar e a gritar : "Quero voltar para a minha casa!!! Não é possível, não faz nem meia-hora que estamos aqui e já temos uma tonelada de aborrecimentos! Quero a minha maleta!!!". Meu marido, assustado com a minha crise de nervos (em geral sou calma e ponderada, pelo menos exteriormente), tentava raciocinar: "Qual foi a última vez que você a viu?""O que tinha dentro da maleta?" Não conseguia responder. Ele viu um agente da segurança e explicou a situação. O rapaz foi seco e objetivo: "Meu senhor, todos os objetos encontrados sem acompanhantes são explodidos por medida de segurança. Se a maleta foi esquecida em algum lugar e o senhor quiser recuperá-la, vá depressa ao posto policial para informá-los que ela é de vocês". Imaginem só!!! Minha maleta, cheia de presentes oferecidos com amor e carinho pela família , e dos souvenirs que tínhamos escolhido com tanto cuidado para os amigos da França, confundida com uma bagagem de terrorista portadora de ódio e de morte e detonada!!! Não é possível, pensei...Nisto, meu marido tinha corrido como uma flecha na direção do posto policial. Impossível de acompanhá-lo, eu e minha sogra que tentávamos segui-lo logo o perdemos de vista. Ficamos lá, paradas, esperando...nisto aconteceu uma coisa hilariante. A saia da minha sogra caíu! Pois é, caíu no chão como uma folha de papel. Passado o espanto do primeiro momento, olhei em volta para ver se alguém estava observando a cena. As poucas pessoas que estavam nesta parte do terminal conversavam entre elas e não pareciam ter visto nada. E minha sogra estava vestida com o mantô, que ia até debaixo do joelho, logo ninguém percebia que ela estava sem saia. Pegamos a saia do chão e penduramos no braço dela, como se fosse um agasalho suplementar. Nos olhamos e caímos na risada. Pelo menos o incidente serviu para aliviar a atmosfera. Alguns minutos mais tarde, ouvi no alto-falante do terminal : "Por motivo de segurança, a pessoa que encontrou uma maleta laranja no terminal D queira entregá-la imediatamente aos nossos serviços". Pronto, pensei, ele conseguiu transmitir a mensagem. Ainda alguns minutos e meu marido voltou sorridente : "A maleta foi encontrada pelos seguranças do aeroporto, eles a abriram e constataram que não havia nada de perigoso dentro, disseram que vão colocá-la na sessão de Objetos Encontrados". Depois ainda ouvi pelo menos 3 vezes a mensagem e meu marido foi pelo menos 3 vezes aos "Objetos Encontrados" (o agente que a encontrou foi almoçar antes de entregá-la ao setor) antes que eu visse a minha maleta laranja de volta. Que alegria!!! Ela estava toda revirada e bagunçada, mas sem faltar nada : meus cadernos cheios de anotações, o vinho do Vale do Rio São Francisco que foi presente do meu sobrinho, o lindo colarzinho de grãos da Amazônia que minha irmã pequena me deu, os quadrinhos e a aquarela vindos de Paraty, os objetos de madeira esculpidos que trouxemos para oferecer aos amigos daqui, meu cachecol...tudo estava lá. Aliviada, nem senti passarem as horas de espera para a conexão para Luxemburgo...onde chegamos embaixo de frio e neve, mas com a maleta laranja. Ainda bem, pois nossa bagagem de mão foi a única que levamos para casa neste dia...pois as cinco malas que embarcamos no bagageiro do avião em São Paulo se extraviaram no caminho! Que viagem!



Escrito por Maria Augusta às 08h49
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O Pastel de Feira

Desde que mudei para o Exterior, fiquei com umas manias esquisitas…quando penso na comida brasileira, as coisas que mais me fazem falta são aquelas que quando morava aí eu nem pensava, ou comia raramente. Uma delas é o pastel de feira…

Não sei de onde vem este desejo. Imagino que seja da época quando eu era estudante e ia na feira com a minha mãe. Iamos naquela feira que tinha na Dr. Arnaldo, na época ainda não existia o grande viaduto sobre a Avenida Pompéia. No lugar, havia um "galpão" enorme, no qual havia uma feira ótima 3 vezes por semana…ali podíamos encontrar um pastel de qualidade! Uma outra hipótese é que este "desejo" venha do fato de que pastel eu não posso encontrar aqui, apesar de que a colônia chinesa é numerosa…

Pois é, tinha chegado para as férias em São Paulo no domingo, já era sexta-feira e eu ainda não tinha ainda comido um pastel. Cheguei na portaria do prédio e perguntei : "Seu Zé, aqui perto não tem feira?". Ele me disse "Tem sim, mas foi ontem". Desolada, eu disse : "Ontem?! Mas eu não vi!" "E que é na rua de trás", respondeu ele. Fiquei chateada, mas pensei "Na semana que vem não perco esta feira".

No sábado, fui dar uma volta em Pinheiros para olhar as lojas e as livrarias. Andando ali perto da Pedroso de Morais, percebi que havia uma feira. Ô maravilha, é agora que vou comer meu pastel. Achei a banca de pastéis, tinha fila, esperei ansiosamente minha vez. Então a vendedora me perguntou : "De queijo ou de carne?" Pedi o de carne, ela foi prepará-lo. Aquele barulhinho de fritura era uma verdadeira música para os meus ouvidos (nem pensei que aquele óleo podia estar ali há séculos, não fiquei tão francesa assim). Enfim peguei o meu pastel, percebi que ele era maior que aqueles que eu comia na feira da Dr. Arnaldo, e sai andando e comendo, saboreando cada pedacinho, sem deixar cair no chão nem uma casquinha. Nisso, uma senhora para ao meu lado e diz : "Moça, me dá o resto do teu pastel?" Nem acreditei…meu pastel, tão desejado e esperado e eu nem podia comê-lo inteiro?! Nem pensar. Naquele momento, se alguém me pedisse dinheiro, ou ajuda, ou qualquer outra coisa eu teria dado. Mas não meu pastel! Respondi "Meu pastel, NÃO!" e saí praticamente correndo para longe da mulher.

Parei alguns metros mais adiante, pensando : "Ei, fominha, espera aí, sua egoísta! A pobre coitada deve estar com fome, dá 1 real para ela comprar um pastel". Voltei para trás, vi a mulher e ofereci o dinheiro para ela comprar o pastel. Ela ficou meio espantada, mas aceitou. E eu fui embora, feliz da vida porque tinha comido o meu pastel, e também porque havia permitido a alguém de ter a chance de comer esta delícia.

  

Escrito por Maria Augusta às 06h53
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Paulistana da gema vivendo atualmente na França, utilizo este blog para contar as coisas pitorescas e surpreendentes, que vivi ou descobri nas minhas férias em São Paulo, e com o novo olhar de antiga habitante e de turista.
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